“Mãe, há coisas que o chocolate ainda não sabe dizer”

MAE_VINTE_VINTE

Mãe,

Há coisas que o chocolate ainda não sabe dizer.

Pode derreter na boca, surpreender com um recheio inesperado ou encher a casa de aroma quando se abre uma caixa… mas ainda não aprendeu a agradecer todas as vezes em que estiveste lá, mesmo quando ninguém reparou.

Quando penso no Dia da Mãe, percebo que fui aprendendo contigo algo mais importante: que as coisas boas não se consomem à pressa, partilham‑se. E muitas vezes, partilham‑se em silêncio.

Lembro‑me de haver sempre qualquer coisa guardada “para uma ocasião especial”. Às vezes era um chocolate melhor, outras vezes era apenas aquilo que se conseguia comprar. O que não faltava era o gesto: partir um pedaço, pôr num pratinho, oferecer primeiro aos outros. Era a tua forma discreta de dizer “vocês vêm sempre primeiro”.

Hoje, quando trabalhamos com cacau vindo da Amazónia peruana, de lugares onde se protege a floresta, se planta e replanta árvores e se cuida da terra para que continue fértil para quem vem a seguir, penso muito no que aprendi contigo sobre cuidado.
Ali, há quem passe anos a regenerar solo, a misturar árvores de cacau com outras espécies para preservar a biodiversidade, a reutilizar quase toda a matéria orgânica para alimentar a terra e reduzir fertilizantes.
Aqui, tu passaste anos a fazer o mesmo connosco: a dar estrutura, a criar raízes, a garantir que havia futuro.

É, por isso, que quando abrimos uma caixa com pequenos quadrados de chocolate diferentes – uns com um toque de chili mais atrevido, outros com flor de sal, outros com menta fresca, leite com avelãs, branco com frutos vermelhos – não vejo só sabores. Vejo possibilidades de conversa:
“Qual é o teu preferido?”
“Este combina mais contigo.”
Cada quadradinho é quase um pretexto para te ouvir mais uma história, mais um episódio que ainda não conhecia.

Há dias em que o que apetece é um gesto pequeno, quase sussurrado: um bombom que não precisa de grande explicação, com um recheio que se revela aos poucos, como aquelas memórias que voltam de repente quando sentes um aroma familiar na cozinha.
São cinco, só cinco, alinhados numa pequena caixa – suficientes para que cada dentada seja escolhida com cuidado, como quem escolhe as palavras certas antes de falar.

Outras vezes, o momento pede algo mais profundo, mais lento, mais adulto, como uma trufa que obriga a abrandar, a fechar os olhos por um instante e a deixar que o interior cremoso faça o resto. Não é um doce de passagem: é um bocadinho de tempo condensado, uma desculpa para ficarmos sentados mais uns minutos à conversa.

No fundo, tudo aquilo que vamos aprendendo sobre chocolate – de onde vem, como é trabalhado, como se prova com todos os sentidos – serve para chegar aqui: perceber que o verdadeiro luxo nunca foi o produto em si, mas a forma como o partilhamos com as pessoas certas.

Neste Dia da Mãe, sei que nenhum chocolate consegue dizer tudo o que ficou por dizer ao longo dos anos. Mas também sei que um pequeno gesto pode abrir espaço para muitas palavras.

Talvez seja uma caixa de bombons que faz o coração derreter antes de chegar à primeira dentada.
Talvez seja uma coleção de pequenos quadrados de sabores diferentes, para descobrirmos juntos qual é “o nosso”.
Talvez sejam trufas que nos obrigam a abrandar e a saborear o silêncio confortável de quem já não precisa de se explicar tanto.

O chocolate ainda não sabe dizer tudo.
Mas, se tu estiveres desse lado, eu prometo continuar a tentar, pedaço a pedaço.

Com amor,

Pedro Araújo

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